segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Campeonato Brasileiro - GLOBO/CBF x C-13/RECORD

A discussão surgida nos últimos dias, em decorrência do racha no Clube dos 13, tem feito muito torcedor levantar os prós e os contras sobre cada postura seus clubes devem tomar nessa briga.

Faço aquí, uma análise como torcedor do GRÊMIO sobre o assunto:

Uns defendem que o Odone deve se bandear pro lado da Globo/CBF, com isso o Grêmio recebendo mais dinheiro do que recebe atualmente (falam aí em R$ 60 milhões/ano), além de supostas vantagens e benefícios na escolha da Arena como sede da Copa 2014.

Outros sustentam que o clube deve manter-se ao lado do C13, consolidando a aliança política histórica com o Fábio Koff e preservando os termos atuais pra provável assinatura de contrato com a Record, o que injetaria mais dinheiro em todos os clubes nacionais e beneficiaria o futebol brasileiro num todo.

O principal problema até aqui, é que a gurizada tá pensando MUITO "dentro da caixa", vendo só as questões óbvias dessa briga (dinheiro e visibilidade/audiência, além da qualidade da cobertura jornalística).

Ao mesmo tempo em que discutem essas questões (que eu vejo como menores), está se formando um racha dentro de todas as grandes torcidas a respeito de que posição deve ser tomada - o que não duvido que seja justamente uma das intenções da Globo e da CBF: incitar a discórdia, tanto entre os clubes como nas torcidas.

A Globo tem uma visão mercadológica quase extremista sobre a sua audiência: "vamos investir só naquilo que nos dá retorno certo". E o que dá retorno pra ela em audiência é grande público de massa - leia-se torcidas do Flamengo e do Corinthians.

Um minuto de exposição do Ronaldinho no Globo Esporte treinando na Gávea ou do Ronaldo Gordo dando entrevista com o símbolo do Corinthians na camisa dão mais retorno em audiência pra emissora do que um quadro inteiro falando de uma vitória épica do Grêmio numa final de Libertadores. Isso quem diz não sou eu, mas sim estatísticas de audiência. E é em cima disso que o alto-comando da emissora se baseia pra traçar estratégias de aquisição e fixação de público em frente a TV.

Em Estados onde só há duas grandes torcidas (nosso caso no RS, assim como Minas e Bahia), as emissoras só precisam se concentrar em dois clubes: noticiários, jogos, reportagens, etc. E tenho certeza absoluta que o alto-comando da emissora deve ter aprendido com as suas afiliadas e colegas do exterior sobre como é simples e lucrativo manter apenas três equipes setoristas cuidando do futebol: uma cuida do time A, outra do time B e a terceira, do "resto" (times do interior e de menor torcida). Reparem que é assim que todas as emissoras do RS cobrem o futebol do Estado: setoristas do Grêmio, setoristas do Inter e uma 'equipe' (quando não apenas UM profissional) repercutindo os demais times do interior.

Agora transponham esse sistema pro território nacional. Teríamos a estrutura da matriz da Globo focada quase única e exclusivamente no Flamengo, como uma equipe de setoristas secundários cobrindo os outros times cariocas; enquanto isso, a filial SP cuidaria da cobertura ao Corinthians, com setoristas menores cobrindo os demais times da capital e do interior. E os demais times dos outros Estados? Só teriam espaço no noticiário quando conseguissem alguma proeza, como um título de destaque. Repararam as semelhanças? É o que emissoras do RS já fazem há anos, só repercutindo algum time interiorano quando ele consegue uma façanha!

Em outras palavras: o que a Globo vem tentando fazer há anos, e que agora, com a ameaça real da Record, está tentando acelerar o processo, é homogeneizar o público-alvo consumidor de forma a torná-lo mais maleável e permissivo em relação à programação da emissora. Da mesma forma, está tentando polarizar o esporte em torno de Rio-SP como se todo o resto do país não estivesse "ao nível" do Eixo. É o que acontece na Inglaterra (Eixo Londres-Manchester), Espanha (Eixo Madrid-Barcelona) ou Itália (Eixo Milão-Roma) - coincidentemente os países cujos campeonatos de futebol são os que mais movimentam valores em público, transferências de jogadores e direitos de transmissão.

Se levarmos em conta que o futebol responde hoje por uma fatia gigantesca no faturamento de uma emissora que vem perdendo audiência geral ao longo dos anos, esse setor acaba tornando-se a a espinha dorsal no faturamento-bruto da empresa. Se antes os contratos de publicidade em horário nobre, merchandising em novelas, reality-shows e venda de programas a outras emissoras do mundo garantiam um faturamento muito bom, com a queda progressiva de audiência esses números também caem, causando uma retração nos investimentos e na qualidade das produções - iniciando um ciclo vicioso de decadência que invariavelmente termina com o encolhimento da emissora.

Com isso, o futebol - que traz uma garantia de grande audiência fácil com um mínimo de investimento próprio - passa a se tornar carro-chefe pro alto-comando, a ponto de, ao se sentirem ameaçados com a possibilidade de perda desse bem precioso, passarem pro campo da politicagem e das manipulações sujas de bastidores pra garantir a sua fonte de renda. E é bom que se diga que todo o dinheiro pago aos clubes, através dos contratos com o C13, era oriundo quase inteiramente de adiantamentos publicitários feitos pela emissora com seus anunciantes. Logo, não é nem nunca foi grana saída diretamente da conta da emissora, e sim de empresas como AmBev, Itaú, Alpargatas, entre outras.

Diante da diversidade cultural brasileira, esse processo de homogeinização cultural nunca foi totalmente implementado - basta ver os baixíssimos índices de aceitação e inserção da torcida flamenguista e corinthiana no Rio Grande do Sul. E isso não se limita apenas ao futebol: muita gente não percebe, mas diversos termos regionais são plantados no subconsciente do grande público, de forma que muito dos vocabulários e sotaques regionais acabaram perdendo força ao longo das últimas décadas. E tudo isso fruto de novelas, seriados e filmes com atores globais de grande popularidade. Já se perguntaram porque a imensa maioria das novelas e seriados se passa ou em São Paulo, ou no Rio? Quem pensa que é por Praticidade ou redução de Custos, por os núcleos de produção ficarem nessas cidades, não percebe o quanto é ingênuo.

Em algumas épocas (principalmente nos anos 80 e 90), até mesmo novelas com ambientação no Nordeste foram feitas, obviamente com o intuito de atrair o público-alvo da região, assim como a grande leva de imigrantes residentes nas duas grandes cidades do Eixo. Com o tempo - e a queda na audiência desse tipo de produção -, percebeu-se que era melhor focar mesmo no cotidiano das duas grandes cidades, de forma a apresentá-las subjetivamente como exemplos de sucesso e felicidade.

Do mesmo modo, porque tão poucas produções focadas nos Estados do Sul são feitas? Se houvesse um grande afluxo migratório de gaúchos e catarinenses para as duas cidades, certamente veríamos essa situação de forma diferente da atual.

De todo modo, a Globo finalmente está se vendo ameaçada de forma real e sólida pela Record. E está fazendo o que está ao seu alcance para garantir sua fonte de faturamento. Obviamente, está usando de meios não-transparentes pra isso, incitando a discórdia desde o mais alto-escalão do futebol nacional (Clube dos 13) até o mais inferior (as próprias torcidas), tentando angariar apoio em meio a cizânia. Dessa forma, espera que o próprio público se coloque a seu favor, numa tentativa de garantir sua sobrevivência comercial sem necessariamente melhorar o seu próprio produto.

Ao conseguir que Flamengo, Corinthians, Vasco, Botafogo e Fluminense lhe apóiem implicitamente, a emissora espera que suas torcidas, como uma verdadeira massa de manobra, fiquem a favor dos termos ditados pela emissora, em detrimento à proposta financeiramente muito mais vantajosa da Record. E, ao cortejar o Grêmio, a estratégia é seguida exatamente à risca, já que somos vistos como a maior fatia de público no Sul. Não surpreende que façam propostas financeiras irreais ao presidente Odone, uma vez que a situação saiu do campo das negociações comerciais e entrou pras negociatas politiqueiras.

Ter a Record como detentora dos direitos de transmissão do futebol no Brasil tem um significado muitíssimo maior do que simplesmente imagem melhor, cobertura melhor ou dinheiro em maior quantidade sendo distribuído entre os grandes clubes. Tem a ver com mudança de rumo, de postura, da forma de pensar o esporte no Brasil como negócio.

Ninguém espera que a Record seja um totem de lisura e transparência corporativa (não enquanto for de posse da Igreja Universal). Mas só pelo fato de ela entrar na disputa demonstrando transparência e objetividade, jogando abertamente e apresentando propostas mais vantajosas a ambos os lados da negociação, merece amplamente o crédito de todos os andares interessados nessa disputa - desde o presidente Koff, até o dono do boteco aonde assistimos os jogos do Grêmio no meio da semana, passando por nós mesmos e o presidente Odone. Simplesmente porque há interesse em melhorar o que está estabelecido, e já que a parte atualmente detentora dos direitos não quer discutir sobre mudanças nesse patamar, então que ouçamos a melhor proposta para todos.

Aqueles que acham que com a Record a cobertura dos jogos e transmissões não será tão boa quanto é atualmente pela Globo, lembrem-se que, quando se consegue um novo carro e não se tem aonde guardá-lo, o dono logo dará um jeito de construir uma garagem.

Em outras palavras: é óbvio que, com a confirmação do contrato, a Record investirá como nunca no seu departamento de Esportes, com a aquisição de melhores equipamentos e a contratação de profissionais gabaritados. Haverá uma escalada de qualidade sensível, que ainda não é possível ver diante da incerteza pela qual a emissora passa com esse rolo todo.

Isso vai muito além de princípios ou gostos pessoais. Significa ter a possibilidade de mudar o status quo estabelecido há 26 anos, de forma a mudar o foco de quem verdadeiramente fatura em cima do futebol no Brasil. E engana-se quem pensa que quem paga essa conta pelos direitos de transmissão são as emissoras: é o grande público, o mesmo que acaba se deixando ser manipulado por informações tendenciosas e parciais vindas de um meio de comunicação sem vínculo ou compromisso social com 90% da população.

Um comentário:

@jairnews disse...

correto sábias palavras