sexta-feira, 2 de abril de 2010

Crítica: BASTARDOS INGLÓRIOS

Conforme prometido, assistiria e faria uma crítica ao exclamado Bastardos Inglórios. Segue ai.

Uma longa gestação produziu um dos roteiros mais interessantes que já assisti. Numa construção singular, Tarantino edifica uma realidade paralela, uma realidade alternativa, misturando personagens reais e fictícios. O toque de mestre, a sacada em envolver Adolph Hitler (Martin Wuttke) e Joseph Goebbels (Sylvester Groth) aos bastardos e a agentes da SS, cria uma trama ficcional capaz de prender o espectador. O filme tem seu tom dado pela primeira fala do roteiro; “Era uma vez uma França ocupada pelos nazistas...”. Com um toque impar, Tarantino tenta nos colocar em um mundo surreal construído por ele.

A violência, eterno estilo nos filmes de Quentin, é em Bastardos Inglórios um tanto contida e é deixada para poucos momentos de impacto. Nestes poucos, como de praxe no estilo Tarantinesco, ele mistura cenas de profunda violência ao humor, dando um ar ameno, por assim dizer, ao sangue derramando. Mesmo que contida, a violência é presente e ele leva elementos bem Americanos ao território europeu. Alías, a premissa é bem simples e parte daquele famoso princípio que os EUA sempre se consideraram policiais do mundo. Aqui, eles também são. Tomando as dores de milhões de judeus que sofriam estando na mira do regime nazista, resolvem partir para o ataque sem maneirar na violência.

A fotografia, como penso, merecia sua própria crítica mas dedico-lhe ao menos um parágrafo. Magnífica. Essa palavra passa todo o sentimento sobre a fotografia do filme. Momentos obscuros, úmidos, gélidos. Tarantino conseguiu transparecer em sua íntegra todo o clima europeu da guerra numa obra-prima da fotografia cinematográfica. Talvez sejam as técnicas usadas que deixam o filme um Épico Tarantinesco.

A trama, no entanto, investe nos atores. Tarantino transforma o vilão do filme num antagonista tão sensacional que não dá chance a quem quer que divida a cena com ele. A direção de elenco, talvez, seja a melhor da brilhante carreira de Quentin. Christoph Waltz, austríaco, interpreta o cínico Coronel Hans Landa, detetive conhecido como “Caçador de Judeus” que age à procura de judeus escondidos na França a serviço da SS. Waltz faz do vilão o protagonista de todas as cenas em que atua. Brad Pitt, interpretando o sargento apache americano Aldo Rayne é caricato, como o filme exige. Caricaturas, aliás, são o pão-com-manteiga do filme. É divertida a maneira como Tarantino conscientemente reduz personagens aos seus estereótipos conhecidos (o americano caipira e bruto, a francesa blasé, o inglês supereducado, os nazistas engomadinhos...) para economizar tempo em explicações e construção de personagens.

Como não poderia deixar de fora, tenho que fazer uma observação a, já conhecida e bem-sucedida, técnica que Quentin Tarantino usa e abusa em seus longas de dividi-los em capítulos. Esta característica impar de Quentin está presente novamente em Bastardos Inglórios e pode ser sentida pelo ritmo do filme, pelo calor produzido pelos encontros, pela fotografia, pelos diálogos e até mesmo pela trilha sonora (mais um ponto da construção da obra).

Tarantino é um nerd-cinéfilo que mistura em sua técnica cinematográfica estilos distintos, épocas distintas e o resultado culmina sempre com uma cessão digna de aplausos, transformando seus longas em obra-prima mas, acima de tudo, em uma homenagem ao cinema.

Por: Paulo Henrique Sernajoto - 02/04/2010.

Espero que gostem. Bom feriado.

PS.: próxima crítica: 2012.

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